Em cenários de aperto financeiro, parte dos brasileiros tem optado por priorizar o pagamento de contas com juros mais elevados, como a do cartão de crédito, em detrimento da taxa condominial. Essa estratégia, conhecida como "inadimplência estratégica", surge como uma tentativa de gerenciar dívidas em um contexto de inflação e renda pressionada.
A matemática por trás do adiamento
Enquanto os juros do rotativo do cartão de crédito podem ultrapassar 400% ao ano, a taxa de condomínio, geralmente, tem seus juros limitados por lei a 1% ao mês, somados a uma multa de 2%, resultando em aproximadamente 14,2% ao ano. Essa diferença significativa de encargos leva alguns consumidores a considerarem o boleto do condomínio como uma linha de crédito informal de baixo custo.
Léo Mack, diretor de operações da uCondo, empresa de tecnologia para gestão de condomínios, observa que, frequentemente, quem deixa de pagar o condomínio já tem outras partes do orçamento comprometidas, como cartão de crédito, aluguel ou financiamentos de veículos.
O condomínio como "crédito informal"
Um estudo da Pontual Garantidora, empresa de antecipação de crédito condominial, aponta que a taxa condominial representa cerca de 25% da receita de alguns condomínios. Quando um morador se encontra em dificuldade, ele pode usar o condomínio como uma forma de alívio temporário, adiando o pagamento.
Davi Duarte, economista da Mhydas Planejamento Financeiro, explica que essa situação é um sintoma clássico de juros altos combinados com renda pressionada pela inflação. Ele ressalta que, embora o condomínio seja uma despesa fixa e recorrente, sua inadimplência pode ser vista como uma opção de último recurso quando o orçamento não fecha.
Aumento da taxa condominial e inadimplência
O Censo Condominial 2025/26, da uCondo, indicou que a taxa condominial média no Brasil subiu de R$ 413 para R$ 538 entre o primeiro semestre de 2022 e o primeiro semestre de 2026, um aumento de mais de 30%. Esse avanço torna a taxa uma conta cada vez mais relevante no orçamento familiar.
A inadimplência também tem crescido. No primeiro semestre de 2026, 12,50% das taxas condominiais estavam em atraso há mais de 30 dias, segundo a uCondo. Esse índice vem em trajetória de alta desde 2022.
Impacto regional e nas finanças do condomínio
As regiões Norte e Nordeste apresentam os maiores índices de inadimplência condominial. Especialistas atribuem essa diferença a cenários econômicos que pressionam de maneira desigual o orçamento das famílias.
A inadimplência afeta diretamente a saúde financeira do condomínio. A falta de pagamento por parte de alguns moradores reduz o caixa disponível, impactando despesas essenciais como manutenção, serviços terceirizados e contas de consumo. Em muitos casos, a inadimplência de um morador é repassada aos demais, que pagam em dia, por meio de rateios extras.
Os riscos de não pagar a taxa condominial
Apesar da percepção de que atrasar o condomínio não traz consequências graves, a dívida possui uma característica jurídica chamada propter rem, que a vincula diretamente ao imóvel. Isso significa que a dívida não desaparece e pode levar, em casos extremos, ao leilão do imóvel.
Além do valor original da taxa, a dívida pode aumentar com a incidência de juros, multas e custos judiciais e advocatícios caso a cobrança avance judicialmente.
Guto Germano, sócio-diretor da Pontual Garantidora, alerta que o condomínio não é uma instituição financeira e não tem margem de lucro para absorver calotes temporários. A inadimplência de poucas unidades pode gerar um rombo imediato nas contas, forçando o síndico a aprovar rateios extras para cobrir os custos.
