Estratégia fiscal do governo de Javier Milei desacelera expansão do crédito e volta a foca nos títulos públicos

A ofensiva do governo do presidente libertário Javier Milei para fazer os bancos argentinos voltarem a emprestar à economia está perdendo força de forma expressiva na Argentina.

As instituições financeiras voltaram a depender dos títulos públicos como principal fonte de lucro devido à desaceleração econômica e ao aumento da inadimplência no país.

Os ganhos com papéis do governo responderam por 56% da receita operacional dos bancos comerciais em julho, conforme informação divulgada por Info Credito.

Retomada dos empréstimos e os novos obstáculos

O crédito ao setor privado cresceu de forma acelerada após a chegada do presidente ao poder, passando de cerca de 5,3% do PIB no fim de 2023 para aproximadamente 12,5%.

O ministro da Economia, Luis Caputo, celebrou essa transformação em maio de 2025, afirmando em Buenos Aires que os bancos voltaram a funcionar como intermediários financeiros tradicionais.

No entanto, a receita líquida de juros caiu para apenas 3% da receita operacional em janeiro e estava em 17% em julho, pressionada pelo aumento da inadimplência e pelo endividamento das famílias.

Impacto da política monetária e da inadimplência

Segundo Juan José Vázquez, chefe de pesquisa da corretora Cohen, os bancos ainda estão priorizando liquidez em um ambiente incerto para reagir mais rapidamente às mudanças.

Marcelo de Gruttola, analista da Moody’s Ratings, apontou que o crédito está estagnado devido ao endurecimento dos critérios de oferta e à queda na demanda real.

Os juros elevados utilizados para conter a inflação afastam os tomadores de melhor qualidade e aumentam os riscos operacionais para as instituições financeiras locais.

Dependência de títulos públicos e medidas do Banco Central

Com dificuldades para acessar mercados internacionais, o Tesouro argentino depende fortemente dos bancos locais para refinanciar sua dívida em pesos no mercado interno.

O Banco Central elevou os depósitos compulsórios em agosto de 2025, permitindo o cumprimento de exigências por meio da compra de títulos públicos em leilões.

Essa estratégia garante demanda cativa para a dívida, mas encarece o custo do dinheiro e afasta ainda mais os bancos da concessão de empréstimos ao setor privado.

Cautela bancária diante das eleições presidenciais

A proximidade da eleição presidencial argentina de 2027 aumenta a cautela dos bancos, que preferem ativos líquidos que possam ser vendidos rapidamente em caso de volatilidade cambial.

Juan José Vázquez destacou que a extrema volatilidade do peso durante a eleição legislativa anterior gerou cautela adicional entre os investidores e executivos do setor.

Dessa forma, os títulos públicos continuam oferecendo uma alternativa atraente e segura para os lucros bancários enquanto a economia brasileira e regional observa o cenário argentino.

Perguntas Frequentes

Por que os bancos argentinos reduziram a oferta de crédito?

Os bancos reduziram os empréstimos devido ao aumento da inadimplência, à desaceleração econômica e à alta atratividade dos títulos públicos emitidos pelo governo de Javier Milei.

Qual o peso dos títulos do governo na receita dos bancos?

Os ganhos com títulos públicos responderam por cerca de 56% da receita operacional dos bancos comerciais em julho, superando com folga a atividade tradicional de empréstimos.

Como o Banco Central da Argentina incentiva a compra de títulos?

O Banco Central elevou os depósitos compulsórios e permitiu que os bancos utilizassem a compra de títulos públicos em leilões do Tesouro para cumprir essas exigências regulatórias.

Como a proximidade das eleições afeta os bancos argentinos?

A proximidade da eleição presidencial de 2027 gera cautela nas instituições financeiras, que preferem manter títulos públicos líquidos para reagir rapidamente à volatilidade do peso.